quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A imagem da imagem da imagem...


Somos um país careta. E um país de bisbilhoteiros. Estas foram as duas coisas que mais me chamaram atenção quando voltei a morar no Brasil no final do já distante ano de 1996. Por 4 anos, morei em Adelaide, Austrália, uma cidade de 1 milhão de habitantes, pequena (portanto) comparada com São Paulo. Nos primeiros dias eu fiquei realmente chocada com a quantidade de nudez nos outdoors e em programas de televisão. Não, quem me conhece sabe que estou longe de ser uma pessoa puritana. De qualquer jeito, foi chocante. Seria de se esperar portanto, que o país fosse o paraíso da liberdade e dos costumes sexuais e todos os temas correlatos. Me enganei. Ao contrário, o país era (e é) o paraíso da ... hipocrisia. É o país em que a famosa frase sobre a mulher de César (Não basta ser honesta, tem que parecer honesta) foi subvertida. Aqui, não é preciso ser algo, é preciso apenas parecer ser algo... Somos uma país de imagem. Vivemos de imagem. Vivemos enganando a nós e aos outros. Nada mais anti-iluminista do que isto.

Hoje, caminhando na Av. Paulista como sempre faço, parei em uma banca de revista e li na capa da revista Carta Capital desta semana, uma frase de Charles Darwin a respeito dos brasileiros, escrita na década de 1830. Ele diz: ... Ignorantes, covardes, indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem humorados enquanto isto não lhes causar problemas; temperados, vingativos, mas não-explosivos. Poderia ter sido mais certeiro? O triste é que pouco mudou... Somos um país de caráter fraco. Somos, atualmente, um país que as pessoas têm orgulho da sua superficialidade. Vejam por exemplo o caso do lenço palestino. Em uma matéria da Folha de São Paulo do dia 24/01/2009, vários frequentadores da SPFW usavam o lenço. Questionados sobre o conflito na Palestina, responderam que ignoravam. Falavam do lenço como algo que agora era tendência, estilo... Evoluímos para involuírmos? E estas pessoas fazem parte daquele pequeno percentual que, de uma maneira ou de outra, chamamos de "elite"... Aliás, falando de elite, alguém lembra da reação do nosso glorioso ministro (sic) das relações exteriores, Celso Amorim, a respeito dos "ataques" a brasileira na Suiça? Dizia ele que era claramente um sinal de xenofobia. O nosso também glorioso presidente (sic) foi na mesma direção. Falaram sem conhecimento de causa, falaram porque, algo comum por aqui, ambos têm um complexo de inferioridade enorme. Agora que, aparentemente pelo menos, ficou claro que a brasileira em questão mentiu, eles vieram a público pedir desculpas ao governo e ao povo Suiço? Obviamente que não. Eles estão acostumados com o Brasil, onde todo mundo chama todo mundo de qualquer coisa e fica tudo por isto mesmo. O mesmo acontece com os leitores que mandaram cartas indignadas para os jornais, falando da reação da Suiça com o caso. Somos ótimos em acusar. Somos péssimos em reconhecermos que erramos. A mesma crítica vale para a tal "esquerda" brasileira. Esta é talvez o maior dinossauro do país, provavelmente em termos de atraso se compara a direita dos velhos coronéis. Pensar e criar é difícil. Repetir bordões antigos é fácil.

Eu atualmente moro em um bairro que concentra parte desta "elite" burra e careta deste país. E as vezes, andando nas ruas, eu fico desconfiada que estamos em algum ano anterior ao ano de 1888. Isto porque são incontáveis as "mães" e "pais" que vão aos cafés e aos restaurante com seus filhos pequenos e ... uma mulher, toda vestida de branca, em geral de cor negra, que cuida dos filhos... Como? Eu até entendo que você tenha alguém para ajudar, mas domingo a tarde, você não brincar, não alimentar, não educar seus filhos, não querer um momento a sós com eles? Não é só um total distanciamento emocional, é esquisito mesmo. Além de ser um resquício da escravidão. E os salários destas empregadas domésticas? Em geral, são na faixa dos R$500,00 ou R$600,00 mesmo. Mas veja, eu sou amiga da minha empregada!! Eu trato ela bem, como se fosse da família!! Então você paga um salário de fome para alguém da sua família? Acho que nunca leram sobre as estimativas do DIEESE para um salário digno... Ah, mas você está ajudando a combater o desemprego, a empregada deveria estar agradecida a mim! É ao contrário, é você quem deveria estar muito agradecido(a), pois a pessoa está dedicando a coisa mais preciosa que ela tem na vida a você: O tempo dela... Mas não adianta, ainda vivemos por aqui os fortes ecos da escravidão. Não é coincidência, aliás de novo, que os dois países mais superficiais do ocidente são exatamente o Brasil e os Estados Unidos, principalmente a parte sul deste.

E as marcas de grife? Apenas no Brasil pessoas pagam R$1000,00 por uma calça jeans, pessoas que economizam para esta finalidade, só para virem a público desfilarem e dizerem, de maneira subliminar, eu posso... Andando nas ruas e observando, muitas vezes eu tenho vontade de vomitar com esta necessidade das pessoas em promover uma imagem falsa. Conheço pessoas, de novo, da dita "elite" que compram destas roupas quando são aprendidas pela receita federal, ajudando a perpetuar esta interminável cadeira de corrupção que vivemos... Tudo para parecer. Quase nunca para ser. As pessoas não têm gosto, têm apenas (muitas vezes) a cópia falsificada da última bolsa de alguma grande marca internacional...

Eu não estou deprimida, juro!!!!!!!!! É que a leitura desta capa da revista detonou toda esta pequena reflexão... E amanhã começa o carnaval. Atualmente, a festa mais careta e sem graça do país!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Então é um novo ano




Uns dias antes do Natal eu estava em São Paulo em um bar com duas amigas. As duas são bonitas, inteligentes, culturalmente e socialmente de um nível elevado e estávamos num belo papo até que eu fiquei sabendo que uma amiga delas estava chegando e elas estavam com medo que eu não me "comportasse" na presença desta muher. Por que? Ela era uma astróloga, astróloga de profissão, astróloga das duas! Quem me conhece um pouco sabe que eu tenho um pavio curto quando o assunto é astrologia e afins. Bom, ela chegou, uma mulher simpática, e já nos cinco minutos de conversa ela solta algo como "agora que que a lua está passando por saturno..." (ou algo do tipo). Levei um beliscão por baixo da mesa de uma das minhas amigas quando eu fui abrir a boca, mas ainda assim tive que falar: Tudo isto é lixo, culturalmente relevante, mas lixo! Eu sei, eu deveria me conter, mas esta é uma das poucas situações em que o meu sangue realmente ferve! No fim conversamos bastante, mais ainda quando a astróloga ficou sabendo que eu era física etc. No fim, dados meus argumentos contra a astrologia, a desculpa foi a de sempre: A astrologia é uma linguagem figurada, uma simbologia, toda a conversa da posição dos astros apenas traduz um certo "estado" do universo naquele instante. Mas se é só uma representação simbólica, por que a posição e horário exatos do meu nascimento são informações relevantes? Ainda mais, como mostrei noutro post, que a posição que os astrólogos usam é a errada... Mas esta não é a razão principal do post de hoje. O que eu quero discutir é: Por que pessoas como estas duas amigas precisam acreditar em astrologia, numerologia (a astróloga disse que tinha uma numeróloga ótima para apresentar para elas...) etc? Por que precisamos de bengalas para atravessar a vida?

Eu penso bastante sobre esta questão. Na verdade, escrevo hoje de um bar na beira da praia, num dia de chuva, no segundo dia do ano, e com a praia deserta. É ótimo, poucas cenas para mim são mais lindas do que uma praia deserta com chuva. A praia é a Brava. O bar é o Pirata. O ambiente é composto de várias mesas com casais, grupos de amigos, argentinos, gays, uma mulher que se acha a cópia da Ana Hickmann e um carioca chato que toda a vez que a namorada vai no banheiro vem até a minha mesa pedir meu telefone. O que só confirma que realmente os homens vieram com defeito de fábrica... Mas este ambiente, observando as pessoas, é ótimo para escrever sobre os motivos de acreditarmos em um monte de coisas desbaratadas. Anos atrás, vários anos atrás, um psicanalista amigo meu de Porto Alegre me disse que o maior problema do ser humano é manter a cabeça ocupada. Eu não sei se é o maior, mas com certeza coloco entre os maiores. E por que manter a cabeça ocupada? Eu desconfio que é porque se você não a ocupa com algo do tipo construir grandes coisas, ganhar dinheiro, conquistar pessoas, fazer sucesso, comprar compulsivamente etc, o que sobra é solidão mesmo... E temos um medo terrível da solidão. Solidão é a sala de estar da morte... Acho até que as pessoas que mais buscam poder, por exemplo, são as que mais temem morrer e, por consequência, as mais intimamente sós e as mais crédulas. Eu particularmente acho patético pessoas, depois de uma vida, com medo de morrer. Morrer faz parte... De qualquer maneira, pessoas incrivelmente poderosas tipo Stalin, o primeiro imperador da China, Ronald Reagan, para ficar em uns poucos mais famosos, tinham astrólogos particulares. O primeiro imperador chinês empreendeu uma busca tremenda atrás da imortalidade. Os faraós também. Este medo terrível da morte é, para mim, uma grande ferida no ego das pessoas: Como EU, grande como sou, posso desaparecer? Se eu morro, que sentido tem a vida? Não me pergunte... Mas eu acredito no amor, no amor entre as pessoas, acho que é uma das poucas coisas que realmente dá sentido a vida. Pelo menos é o que me mantém, literalmente, viva... Além da física e de um bom espumante, é claro! De qualquer maneira, eu vejo astrologia, numerologia, quiromancia, leitura de cartas etc, toda esta pirotecnia amalucada, como uma tentativa desesperada de ter algum poder sobre o futuro, algo como galhos na beira de um precipício que tentamos desesperadamente, e inutilmente, agarrar para evitar a queda...

Outra razão para crermos em esquemas superiores que governam nossa personalidade é nos livrarmos da responsabilidade por nossas escolhas. É mais fácil eu justificar minhas ações dizendo que eu sou do signo de áries, ou do signo do rato no horóscopo chinês, ou sou o número 9 no eneagrama, ou que o número 7 governa minhas ações segundo a numerologia, ou qualquer outra coisa, do que eu assumir que fiz o que fiz por uma escolha minha. E que não fui forte o suficiente, ou honesta o suficiente, para viver alguma outra escolha. Ser honesto consigo mesmo é dificil. Jogar a responsabilidade para os outros ou para algo pré-determinado na minha vida é sempre a escolha mais fácil. Na verdade, me parece ser uma falta de coragem e uma tremenda covardia perante a vida jogar nos outros, ou no "destino", ou nos astros, consequências de ações que são nossas e apenas nossas...

Então um 2009 com mais responsabilidade por si mesmo e com mais amor entre as pessoas. De fato esta é minha mensagem para o ano novo: Mais amor. Falo isto sem ironia ou sarcasmo... Feliz ano novo!!!

domingo, 30 de novembro de 2008

Luz em São Paulo

Quando: 22/03/2009
Onde: Chácara do Jockey Club
Porque: Radiohead

Precisa dizer mais?

Sim, água faz bem...

Quando eu era criança eu queria fazer medicina. Muitas crianças querem. Mas eu fui além. Eu era uma criança tão sem noção do mundo, tão ingênua, que por volta dos 11 ou 12 anos, depois de "estudar" por conta própria alguns conceitos básicos sobre doenças, procedimentos médicos etc, eu fui até o hospital da pequena cidade em que eu morava para... pedir um estágio!! Nem eu acredito que fiz isto. O fato é que eu acabei, na adolescência, descobrindo a física e foi uma paixão fulminante, que dura até hoje. Estas escolhas devem dizer muito sobre mim: Médicos e físicos são as duas classes com o maior número de pessoas arrogantes que eu conheço. É um páreo duro, pois enquanto os médicos têm, em tese, o poder de vida e de morte, os físicos têm o poder do conhecimento do funcionamento do universo... Quem dá mais? Uma mesa de bar com um médico, um físico e um argentino deve ser muito engraçada! Mas isto não justifica o fato de o conselho federal de medicina ter reconhecido a homeopatia como prática médica em uma resolução de 1980, conforme acabei de ler na página do CRM de São Paulo.

Eu imagino que exista uma disciplina de química básica nas escolas de medicina. E também imagino que nesta disciplina os futuros médicos devem aprender que existe uma coisa chamada número de Avogadro: Existem cerca de 602000000000000000000000 átomos/moléculas de uma dada substância em cada mol de matéria. É um número absolutamente enorme, o que implica, a primeira vista, que é fácil encontrar uma molécula de uma dada substância mesmo quando a misturamos com, por exemplo, água. Então digamos que diluímos esta dada substância em água, algo como para cada litro da substância, colocamos 10 litros de água. Obviamente, a chance de encontrar uma molécula da substância inicial após a diluição será de 10%. Se repetirmos este processo mais uma vez, a probabilidade cai para 1%. E se repetirmos por 30 vezes? A probabilidade fica 0,0000000000000000000000000001% !!!! Você acha que é pequena, inimaginável? É mais fácil você ganhar na mega-sena todas as semanas da sua vida, jogando apenas 6 números por semana, do que achar uma molécula da substância inicial depois de 30 diluições seguidas! Agora, pasmem: Na homeopatia, a diluição de 30 vezes é quase um desvio, o normal é diluir 100 ou 200 vezes... Ou seja, os remédios homeopatas são água pura! E o CFM endossa isto, inclusive com provas para o título de especialista. Será que eles tem alguma questão sobre química básica nas provas? Me dá medo, realmente medo, pensar que o CFM assina embaixo deste mambo jambo sem pé nem cabeça.... Me faz pensar nas outras especialidades...


Mas algumas pessoas dizem: Eu só me trato com homeopatia e me curo na maior parte das vezes. Porque elas melhoram com água pura? Por duas razões. A primeira é que nós temos um sistema imunológico. A segunda é o efeito placebo. Nosso corpo é uma máquina maravilhosa, com o sistema imunológico sendo uma parte particularmente engenhosa. Eu sou louca, não bato bem mesmo, e digo isto porque toda a vez que eu tenho febre causada por algum tipo de infecção, eu fico maravilhada com o fato de eu estar tendo febre exatamente para ajudar a combater vírus e bactérias que estas causando esta mesma infecção. É algo absolutamente fantástico. O corpo sabe cuidar de si mesmo na maior parte das vezes. Não importa se você tomou água pensando se era remédio ou não... E, para isto, entra em cena também o efeito placebo. Exemplo de efeito placebo: Alguém dá grama para o sujeito fumar, dizendo que é maconha. E o sujeito viaja... Este efeito é bem conhecido na medicina (obviamente, menos para o CFM...) e em geral, para evitar que se venda gato por lebre, todo o remédio que você compra em uma farmácia passou por um teste chamado duplo-cego. Neste tipo de teste, são fornecidos para os pacientes as drogas que se quer testar e um placebo (farinha, água etc). No duplo-cego, nem o paciente sabe se está tomando um placebo ou não e nem a pessoa que está admininistrando a medicação. É um sistema particularmente eficaz para se evitar efeitos de sugestão, ou seja, de a pessoa desencadear efeitos bioquímicos no próprio corpo que mascarem os sintomas da doença e apresente melhora no seu estado clínico, simplismente porque alguém falou para ela que aquele medicamento em particular iria melhorar sua saúde. Que as pessoas são sugestionáveis a níveis incríveis é uma grande verdade. Vou falar disto num post futuro. O que definitivamente não é verdade é que água pura atua bioquimicamente no seu organismo.

Acontece que os homeopatas dizem que mesmo após a diluição a água conserva uma "memória" da substância original... Água com memória? Sim, eles dizem que as moléculas de água carregam, de alguma maneira, propriedades da substância original que acabam fazendo o efeito desejado no organismo... Qualquer semelhança com o caso do tenista que eu mencionei antes não é mera coincidência... Isto tem um nome: Se chama pensamento mágico. Minha sugestão ao CFM: Façam um simpósio para discutir o assunto com químicos de ponta, com físicos atômicos e moleculares, e deixem de ser motivo de piada... Eu incluí os físicos para ser coerente com a arrogância que falei no início do post, se bem que eles realmente são úteis as vezes! :)

Vou dormir! Próximo post?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Vicky? Cristina? Barcelona?

Uma pequena parada para um comentário completamente fora do assunto principal deste blog. Depois do filme, fiquei pensando:

Se a pessoa é romântica, quebra a cara
Se a pessoa é audaciosa, quebra a cara
Se a pessoa é recatada, quebra a cara
Se a pessoa é aventureira, quebra a cara
Se a pessoa é conformista, quebra a cara
Se a pessoa é inconformista, quebra a cara
Se a pessoa é amorosa, quebra a cara
Se a pessoa é desencanada, quebra a cara
Se a pessoa é espirituosa, quebra a cara
E vai... Poderia ter sido adicionada uma frase pelo narrador no fim do filme: E como sempre, continua todo mundo insatisfeito! :)

O comentário sobre homeopatia ainda não foi publicado por falta absoluta de tempo. Mas será. Breve neste espaço!

sábado, 8 de novembro de 2008

Só porque você pensou em mim ontem...

O mais comum é mentir para nós mesmos. Mentir para os outros é relativamente a exceção.

Nietzsche

Acho que já aconteceu com todo mundo. Você liga para alguém, amigo, amiga, pai, mãe, enrosco, seja lá quem for, e esta pessoa diz que acabou de pensar em você! Você logo pensa: Nossa, estou conectada a esta pessoa, nossas “almas” estão em sintonia/sincronia ou alguma outra “ia” (talvez manIA obsessiva compulsiva...) Ou você sonha com a pessoa, um sonho ruim, e no dia seguinte descobre que a pessoa morreu, sofreu um acidente etc. Ou você está falando com alguém e “descobre” a próxima frase que a pessoa vai falar. Estamos em comunicação mesmo quando não estamos fisicamente próximas a outras pessoas? Somos capazes de “receber”, de alguma maneira desconhecida, o pensamento de alguém? Em suma, existe algo como telepatia?

Vamos pensar assim. Digamos que você tenha um amigo, um daqueles que pensa mais de si do que realmente é, que diz: Ontem saí e peguei todas! Talvez ele até receba um telefonema na sua frente da “presa” da noite passada, mas será que foi assim mesmo? Será que ele é um exímio “pegador”? Muito provável, ele saiu várias vezes durante a semana, abordou umas 15 mulheres e teve um sucesso. É claro que, como ele se acha, ele vai falar para você só do 1 sucesso, não vai falar dos 14 fracassos, e vai passar a impressão de que com ele ninguém pode! Pois bem, em geral é exatamente isto o que fazemos quando dizemos para alguém: Você não acredita, acabei de pensar na pessoa X e ela me ligou! Ou ainda: Tive um pressentimento ruim sobre X e não é que ela tinha sofrido um acidente? O que eu acho? Que em todos estes casos, enganamos a nós mesmos. “Esquecemos” todas as vezes que pensamos em X e X não ligou ou aconteceu absolutamente nada com X. Então porque acontecem situações de sincronia que nos arrepiam?

É uma questão de probabilidade: Se você pensar um número suficiente de vezes em alguém, VAI acontecer de um dia, após um destes pensamentos, você receber alguma notícia deste alguém. Se você anotasse num papel todas as vezes que pensou em X e nada aconteceu e também todas as vezes que pensou em X e recebeu uma notícia desta mesma pessoa, e em seguida dividir um número pelo outro, fatalmente verá que é um número do tipo 0,01 ou menor... Só que nunca fazemos esta conta. Sempre queremos acreditar que temos uma conexão especial com o outro, algo que transcende o mundo físico, algo que nos faz especiais...E talvez a coisa que mais se queira na vida é ser especial, embora nem sempre lembramos que somos especiais para alguém: Somos todos especiais para nossos pais... Agora, se você não for especial para sua mãe ou para o seu pai, bom, eu sinto muito, mas como se dizia no sul, você está num mato sem cachorro! Boa sorte! Aliás, isto me inspira a fazer a seguinte conjectura: Quanto menos especial você se sentir para os seus pais, maiores são as chances de você procurar uma conexão cósmica onde você se sinta especial, maior a probabilidade de você sair procurando toda e qualquer pirotecnia sobrenatural...

Mas vamos supor que mensagens de pensamento são trocadas entre pessoas. Obviamente, estas mensagens podem ser trocadas independente da distância: Muitas vezes a pessoa pode estar do outro lado do mundo. Eu mesma, quando morava na Austrália, muitas vezes pensava bastante em uma pessoa especial na minha vida, que morava no Brasil, e, vejam vocês, quando chegava em casa tinha uma mensagem dela na secretária eletrônica! Só que para mandar uma mensagem por uma distância muito grande, você precisa de energia. Veja os celulares, por exemplo. A cada poucos quilômetros tem uma torre que capta os sinais emitidos por eles e permitem você falar a distâncias enormes. Não existem torres telepáticas por aí, então a comunicação deveria ser direta entre os dois cérebros. Só que a quantidade de energia para mandar uma informação qualquer a milhares de quilômetros de distância fritaria todos os neurônios do seu cérebro! Alguém pode dizer: Bom, você não precisa de energia para a comunicação entre dois cérebros. Ao que eu responderia: Então vamos parar de conversar, pois se você vai apelar para coisas que não são verificáveis, podemos falar qualquer coisa, tudo vale.... Percebem? Como diz Fernando Pessoa em um dos seus poemas maravilhosos, a metafísica é uma conseqüência de se estar mal disposto...

Próximo blog. Vamos falar sobre homeopatia?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

New age iluminada



Ah, a nova era, a era new age, que encanta tanta gente.... Aqui vai um resumo do pensamento deles:

Não há verdade objetiva. Nós criamos nossa própria verdade.
Não há realidade objetiva, nós criamos nossa própria realidade.
Há formas de conhecimento interiores, místicas ou espirituais
que são superiores às nossas formas comuns de conhecimento.
Se uma experiência parece real, ela é real. Se uma idéia nos
parece correta, ela é correta. Somos incapazes de adquirir o
conhecimento da verdadeira natureza da realidade. A própria
ciência é irracional ou mística. É apenas outro credo, outro
sistema de crença ou outro mito, e não têm mais justificação do
que qualquer um dos outros. Não importa se as convicções são
verdadeiras ou não, desde que elas façam sentido para você.

Pergunta: Se você têm uma perfuração no abdômen, você vai usar o "credo irracional" da medicina ocidental ou o credo irracional de alguma corrente indiana ou chinesa? Se um psicopata tem a convicção verdadeira que precisa matar alguém, isto basta? Ok, estou sendo radical, mas vamos pensar um pouco...

Não existe realidade objetiva? Esta afirmação que o pessoal da new age faz é uma apropriação indevida de conceitos da teoria quântica da física. O filme "Quem Somos Nós" explora e distorce estes conceitos de maneira brilhante. Eu vi este filme em 2006 porque na época eu estava saindo com uma pessoa que não descansou até eu ver este filme com ela: Dada a minha formação ela queria discutir o filme comigo. Bom, fomos assistir e a relação acabou no dia seguinte!! (Brincadeira, não foi por causa do filme, mas teria sido uma ótima desculpa!) O filme diz, basicamente, que criamos a realidade, que a realidade não existe independente de nós e que nossos atos têm o poder de alterar esta mesma realidade. Esta concepção vêm de observações que a física faz em escala microscópica, de cerca de 0,00000000001 m. Pequeno, não? Inimaginável, na verdade... Nesta escala, toda vez que fazemos um experimento, nós "perturbamos" o sistema, de tal maneira que nunca podemos "ver" o sistema não-perturbado, mas somente o sistema que resulta da interferência que fazemos ao observá-lo. É neste sentido que a teoria quântica diz que a realidade é modificada pela nossa observação. So far, so good. O problema é que na escala macroscópica que vivemos e interagimos, este efeito quântico é irrelevante! E não faz sentido você dar para sistemas macroscópicos a mesma interpretação quântica de sistemas microscópicos. Mas o pessoal da new age não quer saber disto, eles querem vender livros, eles querem posar de detentores de um conhecimento hermético que lhes foi revelado, eles querem ser o Merlin dos nossos dias, eles querem ser admirados, é......, no fundo no fundo é tudo vaidade. Ok, eu obviamente escrevo este blog por vaidade intelectual também. Todos somos vaidosos, de uma maneira ou de outra. Abnegação total é um mito, uma lenda... A diferença é que alguns são vaidosos com algo que possa ser verificado, outros são vaidosos com mentiras que enganam e escravizam pessoas dentro de conceitos obscuros, que levam do nada a lugar nenhum.

Eu não sei o que é realidade, provavelmente ninguém saiba dizer exatamente. Mas eu sei os efeitos da realidade, seja lá o que for isto, no nosso dia a dia. Gosto de dar o exemplo do tenista. Digamos que eu esteja em uma sala cheia e declare que estou vendo um tenista batendo bola contra uma das paredes. Se todo mundo da sala disser que não está vendo o tenista, a conclusão é que eu estou alucinando. Se uma ou outra pessoa da sala concordar comigo, a conclusão é que uma ou outra pessoa é altamente suscetível a sugestão. Agora, se todas virem o tenista, então realmente o tenista está lá. A moral é: Para uma coisa ser real, não basta eu sentir como real, outras pessoas também devem perceber esta realidade. Ahhhhhh, mas o pessoal new age vai dizer: Só porque os outros não viram o tenista, não significa que a visão não foi real para você.... Ok, troque o tenista por alguém apontando uma arma contra você e disparando um tiro. Não importa o quão você ache que é real, você não vai ser perfurado por uma bala e não vai sangrar até morrer... Percebem a diferença?

Muito desta mania new age é influenciada pelos anos 50 e 60 e a busca das filosofias orientais, principalmente os chineses e os indianos. Muitas pessoas largaram tudo e foram para a Índia, atrás de iluminação... Não sei quanto a vocês, mas se alguém me oferecesse uma viagem de um mês pela Índia ou um mês no Hilton de Londres ou de Berlin, eu não pensaria um segundo: O Hilton de Londres ou de Berlin. Me chamem do que quiserem, mas numa viagem conforto é fundamental, um bom hotel já garante 50% do sucesso da viagem. O fato é que cresci no campo, com vacas pastando perto da minha casa, com o leiteiro entregando leite de carroça. Eu não preciso ir para a Índia ver vacas no meio da rua e miséria assolando uma cidade. Eu adoro comida indiana, na minha opinião é uma das melhores do mundo, acho até que sou viciada em alguns pratos, pois preciso comer quase toda semana. Mas Londres têm restaurantes indianos estupendos! E quanto a iluminação, eu acho que tenho todos os dias quando caminho até os cafés perto da minha casa, sento, fecho os olhos e degusto um bom espresso! É um estado de êxtase total, não preciso mais do que isto... Mas as pessoas gostam do exótico, do mistério, somos movidos por ele, pelo impossível... E pelo auto-engano!

E a sua realidade, é real ou é imaginada?