quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A imagem da imagem da imagem...


Somos um país careta. E um país de bisbilhoteiros. Estas foram as duas coisas que mais me chamaram atenção quando voltei a morar no Brasil no final do já distante ano de 1996. Por 4 anos, morei em Adelaide, Austrália, uma cidade de 1 milhão de habitantes, pequena (portanto) comparada com São Paulo. Nos primeiros dias eu fiquei realmente chocada com a quantidade de nudez nos outdoors e em programas de televisão. Não, quem me conhece sabe que estou longe de ser uma pessoa puritana. De qualquer jeito, foi chocante. Seria de se esperar portanto, que o país fosse o paraíso da liberdade e dos costumes sexuais e todos os temas correlatos. Me enganei. Ao contrário, o país era (e é) o paraíso da ... hipocrisia. É o país em que a famosa frase sobre a mulher de César (Não basta ser honesta, tem que parecer honesta) foi subvertida. Aqui, não é preciso ser algo, é preciso apenas parecer ser algo... Somos uma país de imagem. Vivemos de imagem. Vivemos enganando a nós e aos outros. Nada mais anti-iluminista do que isto.

Hoje, caminhando na Av. Paulista como sempre faço, parei em uma banca de revista e li na capa da revista Carta Capital desta semana, uma frase de Charles Darwin a respeito dos brasileiros, escrita na década de 1830. Ele diz: ... Ignorantes, covardes, indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem humorados enquanto isto não lhes causar problemas; temperados, vingativos, mas não-explosivos. Poderia ter sido mais certeiro? O triste é que pouco mudou... Somos um país de caráter fraco. Somos, atualmente, um país que as pessoas têm orgulho da sua superficialidade. Vejam por exemplo o caso do lenço palestino. Em uma matéria da Folha de São Paulo do dia 24/01/2009, vários frequentadores da SPFW usavam o lenço. Questionados sobre o conflito na Palestina, responderam que ignoravam. Falavam do lenço como algo que agora era tendência, estilo... Evoluímos para involuírmos? E estas pessoas fazem parte daquele pequeno percentual que, de uma maneira ou de outra, chamamos de "elite"... Aliás, falando de elite, alguém lembra da reação do nosso glorioso ministro (sic) das relações exteriores, Celso Amorim, a respeito dos "ataques" a brasileira na Suiça? Dizia ele que era claramente um sinal de xenofobia. O nosso também glorioso presidente (sic) foi na mesma direção. Falaram sem conhecimento de causa, falaram porque, algo comum por aqui, ambos têm um complexo de inferioridade enorme. Agora que, aparentemente pelo menos, ficou claro que a brasileira em questão mentiu, eles vieram a público pedir desculpas ao governo e ao povo Suiço? Obviamente que não. Eles estão acostumados com o Brasil, onde todo mundo chama todo mundo de qualquer coisa e fica tudo por isto mesmo. O mesmo acontece com os leitores que mandaram cartas indignadas para os jornais, falando da reação da Suiça com o caso. Somos ótimos em acusar. Somos péssimos em reconhecermos que erramos. A mesma crítica vale para a tal "esquerda" brasileira. Esta é talvez o maior dinossauro do país, provavelmente em termos de atraso se compara a direita dos velhos coronéis. Pensar e criar é difícil. Repetir bordões antigos é fácil.

Eu atualmente moro em um bairro que concentra parte desta "elite" burra e careta deste país. E as vezes, andando nas ruas, eu fico desconfiada que estamos em algum ano anterior ao ano de 1888. Isto porque são incontáveis as "mães" e "pais" que vão aos cafés e aos restaurante com seus filhos pequenos e ... uma mulher, toda vestida de branca, em geral de cor negra, que cuida dos filhos... Como? Eu até entendo que você tenha alguém para ajudar, mas domingo a tarde, você não brincar, não alimentar, não educar seus filhos, não querer um momento a sós com eles? Não é só um total distanciamento emocional, é esquisito mesmo. Além de ser um resquício da escravidão. E os salários destas empregadas domésticas? Em geral, são na faixa dos R$500,00 ou R$600,00 mesmo. Mas veja, eu sou amiga da minha empregada!! Eu trato ela bem, como se fosse da família!! Então você paga um salário de fome para alguém da sua família? Acho que nunca leram sobre as estimativas do DIEESE para um salário digno... Ah, mas você está ajudando a combater o desemprego, a empregada deveria estar agradecida a mim! É ao contrário, é você quem deveria estar muito agradecido(a), pois a pessoa está dedicando a coisa mais preciosa que ela tem na vida a você: O tempo dela... Mas não adianta, ainda vivemos por aqui os fortes ecos da escravidão. Não é coincidência, aliás de novo, que os dois países mais superficiais do ocidente são exatamente o Brasil e os Estados Unidos, principalmente a parte sul deste.

E as marcas de grife? Apenas no Brasil pessoas pagam R$1000,00 por uma calça jeans, pessoas que economizam para esta finalidade, só para virem a público desfilarem e dizerem, de maneira subliminar, eu posso... Andando nas ruas e observando, muitas vezes eu tenho vontade de vomitar com esta necessidade das pessoas em promover uma imagem falsa. Conheço pessoas, de novo, da dita "elite" que compram destas roupas quando são aprendidas pela receita federal, ajudando a perpetuar esta interminável cadeira de corrupção que vivemos... Tudo para parecer. Quase nunca para ser. As pessoas não têm gosto, têm apenas (muitas vezes) a cópia falsificada da última bolsa de alguma grande marca internacional...

Eu não estou deprimida, juro!!!!!!!!! É que a leitura desta capa da revista detonou toda esta pequena reflexão... E amanhã começa o carnaval. Atualmente, a festa mais careta e sem graça do país!

7 comentários:

South American Way disse...

Cara Fê, concordo em número, gênero e grau com tudo que vc escreveu....trabalho com estas pessoas e é vergonhoso o mundinho medriocre do secto que elas necessitam para educar seus filhos e desenvolver a tarefas cotidianas mais banais....a escravidão ainda impera; e a babaquice que se instala por aqui nestes dias de "Festa da Carne" parece ignorar a crise pelo qual o mundo passa.....

vkitsis disse...

Como sabiamente disse o Zizek " com a esquerda que nós temos nem precisa de direita".
bj!

O Magnanta disse...

Pois é, desde sempre tive medo e nojo desse estilo de vida. Ainda não tive experiências pessoais de como é estar perto dessa "elite" o dia todo, minha experiência é estar justamente com o contrário dessa "elite". Pior: é perceber que a "contra-elite" deseja, por falta de acesso a boa informação (a televisão aberta, e até a "fechada" não são boas fontes de informação), ser essa "elite".

O *poder* sem saber pra quê.

No mais, estou feliz no Instituto de Física de São Carlos - USP, cursando Física Computacional :)

Abraço,

Raimundo

Fernanda Steffens disse...

Oi Raimundo!
Você tem toda a razão! Eu ia comentar sobre a aspiração das pessoas que estão fora da "elite". De fato, elas querem deixar de fazer compras no paraguai para se tornarem sacoleiras de Miami... É muita pobreza de espírito. E pobreza intelectual também.

Fico contente com o rumo que você tomou. Na minha opinião, física computacional é o futuro da área! Anote!

Fernanda.

Fernanda Steffens disse...

Oi Dani, Vanessa
Falando em crise, outro dia vi no jornal que pessoas que ainda têm dinheiro estão achando de bom tom não abusar na ostentação por estes dias... Isto para mim é a quintessência do escroto...
Beijo!
Fernanda

Angelita disse...

Olá Fernanda,
de certa maneira, você sintetizou muito do que sinto e penso em relação a cultura brasileira. Também vivo num bairro de "elite", e a visão das babás sempre me choca. Outro dia, eu li no jornal a entrevista de uma antropóloga, cuja pesquisa de doutorado foi sobre o trabalho doméstico no Brasil. Fiquei estupefata com a estreiteza mental da mulher. Ao final da entrevista, a repórter perguntou a tal antropóloga se ela tinha empregada. Ela disse que sim, e justificou dizendo que se não tivesse seria impossível conciliar trabalho, estudo, maternidade...enfim, a "pataquada" de sempre. Até parece que em paises como Alemanha, Austrália, Japão, etc., as mulheres não estudam ou trabalham. Pensei, se os nossos antropólogos são incapazes de fazer análise comparativa entre culturas...me dou, definitivamente, por vencida!

Andréa Silva disse...

Adorei... Sem palavras... Moro num bairro bem diferente do seu. Também sou professora e tenho que fazer um esforço danado para não ficar deprimida. Não é só a Elite que quer ser o que não é. É o pais inteiro! Parece que está entranhado em nosso sangue uma falta de amor próprio que não nos deixa ser nós mesmos. Pelo menos percebo que não sou a única que sente essa falta de auto valor e identidade geral. Talvez seja o reflexo da exploração que nosso povo sofreu.